A tropa
sexta-feira, 7 de outubro de 2005Constava no diário do soldado que há 64 dias a tropa estava perdida meio à selva marroquina. Felizmente os mantimentos duravam com sucesso até a presente data. Não lhe faltava comida, remédios muito menos tabuleiros de xadrez, a não ser um bispo, que o soldado 21 fez o favor de perder e não contou para ninguém onde estava.
Caminhantes pela selva do Marrocos, os soldados encontram índios. Apavorados, os soldados sacam suas armas e fazem um posição estratégica de defesa, como aprenderam na escola militar.
– Calma, amigos. Viemos em paz - diz um dos índios.
A tropa inteira se mantém em silêncio, prevendo o pior. Então um dos índios (depois vieram a saber que se chamava Amadeu) fez um sinal coma mão e puxou de dentro do bolso um pente. Era de plástico, marrom e reluzia conforme as folhas da mata dançavam ao vento. Aquilo fascinou os soldados.
Dois dias depois os soldados ainda brigavam entre si.
– Não acredito que trocamos toda nossa comida por estes pentes.
– Calma, senhor. São pentes bonitos.
– Não. - gritava o capitão - Fomos enganados.
– Mas senhor…
– Vamos acabar com estes malditos.
– Vamos - grita a tropa toda, com revolta no sangue.
Um silêncio paira sobre aquela clareira onde a tropa estava. Todos se erntreolham. Alguns soldados coçam a cabeça, outros colocam a mão no queixo e três soldados limpam o ouvido com chave do carro. Então um novo grito do capitão espanta todos animais que estavam num raio de 5 km da clareira.
– Nãããããããããooooooo!!!!
– O que houve, capitão? - pergunta um dos soldados.
– Onde estão as nossas armas?
Um dos soldados (depois vieram a saber que se chamava Juarez) levantou o braço como se quisesse falar algo. O capitão fez um sinal com a cabeça e o soldado prosseguiu:
– Bem, capitão. Eu troquei as armas com os índios.
– Como assim, seu verme maldito? - irrou-se o capitão.
– Troquei nossas armas por estes espelhinhos.
– Espelhinhos?
– Bom… sim, senhor.
– ESPELHINHOS?
– Senhor…
– Que maravilha. Porque não me disse antes?
E lá se foi a tropa, brincando com seus espelhos, refletindo a felicidade de suas faces para toda a floresta, perdidos no Marrocos. Morreram três semanas depois, todos, por falta de mantimentos. Porém felizes.
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