Deu pra ti
terça-feira, 9 de agosto de 2005Deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau. E lá eu fui, com um currículo debaixo do braço e uma idéia na cabeça: comer muita gente, óbvio.
Após algumas horas de ônibus, cheguei na capital gaúcha. Tudo muito bonito e um clima agradável. Calor, sol, vento, tesão, líbido no ar… E Porto Alegre seria a melhor cidade do mundo, se não fosse pelo item que já citei: o vento.
Não sei se era o Minuano, o Nordestão, ou algum outro vento que de tão famoso até nome próprio tem. Mas acontece que em Porto Alegre ventava muito. E lá estava eu andando nas ruas da cidade indo da rodoviária para o local onde marquei de encontrar a Karla, minha anfitriã publicitária gostosa.
Contra o vento eu caminhava e com o vento meu cabelo descabelava. E sabe como o meu cabelo é: Qualquer ventinho e ele ja vira um black power. Então eu e meu black power caminhavamos pelas ruas de Porto Alegre e o ventão contra. Devia ser o Minuano, ou o Nordestão, ou algum desses de nome próprio, já falei disso.
Ao passar na frente de uma construção o vento soprou mais do que devia e um monte de areia voou pra cima de mim, entrando nos meus olhos e prejudicando minha visão. Não enxerguei mais nada. Aliás, enxerguei sim, uma última coisa: Um pedaço de madeira de tamanho razoavelmente grande foi carregado com o vento e bateu na minha testa. Depois disso sim, terminei de perder a visão e desmaiei.
Acordei na delegacia. Não conseguia ver nada, meus olhos doiam e eu estava algemado, detido por estar andando drogado pela rua. Pelo que uma voz grossa (talvez um policial da Brigada Militar) me disse, uma senhora me viu jogado na frente de uma construção e chamou a polícia, pois meus olhos estavam vermelhos e meu cabelo era estranho, típico de marginal carioca que vem roubar no sul.
Mas, mesmo sem visão, consegui fazer o meu telefonema, me garantido por lei, e liguei pra Karla, a minha anfitriã publicitária gostosa. Não demorou muito e ela chegou para me buscar e explicar todo mal-entendido. Saimos da delegacia direto pra um consultório médico, onde foi me dado um remédinho para que minha visão voltasse. O médico disse que com sorte, eu voltaria a enxergar em dois ou três dias.
Cheguei, finalmente, completamente cego, na casa da Karla, minha anfitriã publicitária gostosa. Uma bela casa, creio eu, teria visto se eu pudesse ver algo naquele dia. E na casa, aquela maravilha, me esperando estavam as duas estagiárias safadas e liberais e o Haroldo, amigo da Karla, minha anfitriã publicitária gostosa. Muita bebida acompanhava a noite que estava por chegar.
Depois de algum tempo, bebendo bastante, as estagiárias, não sei se eram bonitas, mas preferi imaginar que sim, partiram pra cima de mim em dupla e acreditem, realizei o meu tão estimado sonho de pegar duas meninas ao mesmo tempo. Uma maravilha.
O beijo triplo
A sensação é bastante parecida com a de tentar lamber o fundo de uma xícara cheia de calda de chocolate. Isto é, você até tenta chegar na parte doce e gostosa mas a sua língua se estica tanto que acaba mesmo é doendo.
Tudo se apagou.
Se apagou mais do que já estava, se é que me entendem. Acordei na manhã seguinte com uma ressaca desgraçada e, para minha surpresa, meus olhos já mostravam um sinal de recuperação. Conseguia eu ver pequenos vultos a frente, como o raio do sol que entrava pela janela e os corpos pelados na cama. E foi justamente aí que veio o pavor.
Na cama haviam três pessoas. E uma delas era bastante peluda. O medo tomou conta de mim e minha visão não me ajudava e por isso eu não conseguia identificar as pessoas que dividiam aquela cama comigo. Ao julgar pela vaga lembrança da noite anterior, duas daquelas bundas eram das estagiárias safadas e liberais, e a outra bunda peluda ou era da Karla que havia tomado hormônios demais e esqueceu de depilar ou era do Haroldo, o amigo esquisito.
Preferi pensar que era da Karla, mesmo sabendo que só podia se tratar de Haroldo. Mas sabe como é, o que os olhos não vêem o coração não sente. E eu já não tava vendo nada, levantei da cama, me vesti e fui em direção aos raios de sol, para a janela, onde encontrei o pequeno cachorrinho da Karla, minha anfitriã publicitária gostosa.
Um cachorro bastante dócil, porém silencioso demais. Quase pertubador. Mas não dei muita bola, continuei brincando com o cãozinho até a chegada da Karla, a minha anfitriã publicitária gostosa, que gritou estupefacta:
– Moskito?
– Eu.
– O que você tá fazendo usando a calça de vinil do Haroldinho?
– Hein?
– E porque você ta acariciando esse pombo sujo na janela?
Resumindo
Não demorou dois dias e minha visão voltou, para minha felicidade. Mas para minha tristeza contraí uma maldita e aguda Criptococose proveniente daquele pombo. Bom, então nem pude fazer mais nada. Passei a semana todo num quarto de hospital em Porto Alegre tomando soro e só voltei ontem para casa.
Haroldo. Saudades.
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