Um corte de cabelo muito louco de verão
quinta-feira, 17 de junho de 2004Após constatar que os mullets já não estão mais na moda e que essa coceira na nuca é causada pelo meu cabelo, hoje fui desprovido de coragem até o cabeleireiro para… adivinhem… cortar meu cabelo, lógico, né?!
Eu corto meu cabelo com o Pedro há mais de 15 anos e, talvez, a única coisa que me deixe um pouco neurótico com ele é o fato dele não ser gay.
Começando pelo salão do Pedro.
Você entra lá e tem umas cadeirinhas de espera. O ambiente é comum, nenhuma coisa estravagante como um quadro de uma modelo nua com um penteado despenteado, ou um chafariz em formato de golfinhos no centro do salão. Nada.
Apenas um grande cômodo branco, com uma samambaia maltratada lá no canto e uma mesinha com algumas revistas ali no outro.
É claro que, como sempre, eu já sabia como seria meu corte: Sempre corto uns quatro dedos de tudo e atrás corta um pouco mais, desbastando um pouco. De modo que ainda cubra minha orelha e não fique tão curto. Mas sempre dou folhadas em revistas para ver se não tem nada de novo no mundo fashion da moda capilar. Eis que na mesinha do salão do Pedro, por ele ser muito macho, não existem tais revistas com cortes extravagantes, mas sim um apanhado de revistas Galileu e uma coleção quase completa de Super Interessante.
Folhei um pouco e logo vi que nunca acharia um cabelo legal que servisse de exemplo para ilustrar o que eu queria. Resolvi esperar ali mesmo, olhando pra samambaia e imaginando o que se passava na cabeça das sete pessoas que estavam na minha frente na fila.
Porém, mal deu tempo de pensar nisso. As sete pessoas foram atendidas e tiveram seus cabelos cortados em pouco menos de 10 minutos. Você até pode pensar que é um novo recorde de corte de cabelo, mas a explicação é simples: Nestes 10 minutos o Pedro nem desligou o botão “power” da máquina de raspar. Foi só chamando o pessoal e raspando, chamando e raspando, chamando e raspando. Estilo puro.
Nem no quartel as coisas funcionam tão bem.
Chegada a minha vez, ele viu a complexidade da minha juba e pediu que eu fosse até ali no lado para lavar o cabelo.
Como o salão do Pedro é deveras macho, ele contratou um cara fortão pra lavar os cabelos dos clientes. O cara devia ser pedreiro no passado, pois lavou meu cabelo de forma tão sutil que até agora desconfio que minha orelha foi parar no lugar da testa.
Depois de lavado o cabelo, o Pedro, que me conhece há mais de 15 anos, veio com o seu papo de sempre:
– Rafael, quanto tempo!
– Gabriel..
– Oi?
– Gabriel é meu nome.
– Ah! Sim. Pois bem Rafael, como vai ser dessa vez?
– Sei lá, Pedro. Tava pensando em fazer algo mais tenebroso
– Como?
– Sei lá! Tipo, fecha o olho e corta.
O problema de um cabeleireiro macho é que ele nunca faz esse tipo de coisa fashion. Ele passa as tardes de sua vida raspando cabeças no mais puro estilo Ronaldinho e não tem tempo para pensar nas viadagens de cortar cabelos de forma artística. Se fosse um gay, ele nem pediria minha opinião. Apenas mandaria eu sentar na cadeira e começaria a cortar de forma louca e ardorosa. Depois me cobraria 30 reais pelo corte e eu iria pra casa com um cabelo estiloso.
– Ah, Pedro! desencana.
– Como vai ser então?
– Tipo: Corta uns 4 dedos de tudo e atrás corta um pouco mais, desbastando um pouco. De nodo que ainda cubra minha orelha e não fique tão curto.
– Tipo channel?
– Não! Deixa que eu explico melhor.
– Explica…
– Corta uns 4 dedos de tudo e atrás corta um pouco mais, desbastando um pouco. De nodo que ainda cubra minha orelha e não fique tão curto.
– Hum… Entendi.
E lá vai Pedro cortar meu cabelo, da mesma forma que ele corta há mais de 15 anos. Depois eu pago os R$ 5,00 e vou embora pra casa com meu novo cabelo velho de sempre.

– Até mais, Rafael.
– Valeo pedro. Obrigadão. Cuida daquela samambaia ali ó.
– Que samambaia?
– Aquela ali que já ta seca no canto.
– Ué!? Pensei que fosse de plástico.
Ai ai, esses cabeleireiros. Cada vez mais machos.
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